quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Tapada Real

A dois passos da vila ducal situa-se a famosa e histórica Tapada Real, prédio rústico integrado no antigo património da Sereníssima Casa de Bragança.

Quem passa por Vila Viçosa mal se apercebe da sua presença. No entanto, o visitante que venha pelo antigo “Caminho dos Castelhanos”, hoje estrada nacional de Elvas, por Borba, ficará sabendo que, desde a lagoa da Albufeira, ao longo da estrada se estende boa parte do paredão que faz cerca no perímetro de 18 km2 da vasta propriedade brigantina.

Foi Formosíssimo parque de distracções dos antigos duques seus fundadores, D. Jaime, D. Teodósio I, D. João I e D. Teodósio II, e continuou, depois de uma pausa de abandono que se seguiu à visita de El-Rei D. João V, a reunir dentro dos seus muros as comitivas reais de D. Pedro V, D. Luís e D. Carlos, que em seus horizontes divisaram fartos de motivos de beleza e diversão cinegética.



Famoso lugar de delícias lhe chamou Lorenzo Magalotti, relator encarregado do diário de viagem de Cosme de Médicis pelas Espanhas, há cerca de trezentos anos…

Sua fama, porém, tem origem em tempos distantes da fixação dos Duques de Bragança em terras do Alentejo, caminhando na sua própria história de recinto de recreação fidalga. Sua extensão foi aumentada até se delimitarem as fronteiras, dentro das quais um autêntico paraíso terreal se ia criando a ponto de suas fontes, jardim e mais encantos terem inspirado um belo poema ao grande Lope de Vega: «En verdes valles de jardines tiene / Quantas flores há visto el fértil Mayo…»

D. Luís de Meneses, no “Portugal Restaurado”, revela que para o Duque D. João II a Tapada de Vila Viçosa, era todo o seu divertimento, não receando considerá-la “uma das maiores e mais abundantes de caça de toda a Espanha”.

Através dos tempos sofreu a Tapada largos benefícios que seus senhores e seus apaixonados não sabiam regatear-lhe: alargamento progressivo da sua extensão, preparação e arranjo de caminhos, arroteamento de terras de cultura, edificação de muro de cerca, erecção de três ermidas (Santo Eustáquio, São Jerónimo e Nossa Senhora de Belém), construção de um belo palacete, iniciado por D. Teodósio I em 1540. Ali adorava o futuro D. João IV fazer pousada durante largas temporadas, recreando-se no prazer da caça e alongamento dos seus pensamentos, até ao momento em que ali foram quebrar o encanto os embaixadores da Conjura do 1º de Dezembro…



Relembramos também que a respeito da Tapada Ducal, mais perto dos nossos dias, também escreveu o Conde de Arnoso em «A Arte e a Natureza de Portugal»:

«O relevo do terreno e as belas árvores que o ensombram dão um grande encanto às tapadas. Logo, à entrada, da ermida de São Jerónimo, abrigada por formosíssimos pinheiros mansos, é esplêndido o panorama que se descobre. Mais longe, e ainda na primeira Tapada, nada mais pitoresco que a branca ermida de Santo Eustáquio, redonda como uma mesquita, coroando o Monte da Atalaia e mandada construir por D. Teodósio II. Para o outro lado, no fundo dum pequeno vale, a nascente das famosas águas férreas.»

Mais adiante, maravilhado com os encantos que seus olhos viram ao natural, porque foi por mais de uma vez, um dos comparsas das comitivas de caça do Rei Martirizado, o Conde de Arnoso dá largas à sua apreciação:

«…Com manchas de mato por causa da caça, a segunda Tapada constitui toda ela um magnífico montado de azinheiras e sobreiros, com alguns pinhais e olivedos. Nesta Tapada, onde há espaços muito agrestes, cada dobra do terreno se desenha numa paisagem deliciosa.»





Hoje a Tapada não difere muito da descrição de que em 1904 deixou dela o escritor. Não é apenas uma evocação histórica, ainda que, indispensavelmente ligada a tantos momentos interessantes da história pátria. Vale a pena percorrer as suas largas extensões, de preferência a cavalo num bom ginete, à maneira alentejana, como tanto era do agrado do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia, as últimas pessoais reais que, por entre mato espesso da charneca, entretiveram momentos de lazer nas batidas de caça grossa. Foi sempre, como é ainda hoje – sem embargo da condição de exploração agrícola – um magnífico parque de caça. Em tempos primitivos (1515) povoaram-na de javalis, gamos e outra caça, para melhor satisfazer os prazeres venatórios dos duques que se fixaram em Vila Viçosa, D. Jaime e seu filho D. Teodósio, principalmente. Construiu este último, no seu termo, um palacete, ainda existente, e que, por si só, justifica uma visita. Nele, no Verão de 1573, receberam os senhores da nobre Casa de Bragança a visita régia de D. Sebastião. Junto deste Paço da Tapada, em hora de caçada, segundo reza a tradição, receberia o duque D. João II a mensagem de Pedro de Mendonça, enviado da conjura gloriosa de 1º de Dezembro, que haveria de transformar o senhor ducal em senhor todo-poderoso dos destinos da grei portuguesa.

Foi precisamente com a saída do então Rei D. João IV para a corte de Lisboa que o delicioso parque de Vila Viçosa perdeu muito da sua atracção. E só em 1729 D. João V, por ocasião da troca das princesa no Caia, veio a ela. Com os rasgos magnânimos que caracterizavam a sua administração, o embelezou e alargou até aos limites que hoje ainda conserva, mandando construir novo muro e fixando a sua entrada principal na nova porta do Outeiro de S. Bento que deita, a Ocidente, sobre a fachada do vestuto Paço Ducal e sobre o casaria alvinitente do burgo tranquilo da nobre povoação.



Com as obras de D. João V e de D. José I (o extenso muro que se alargou até à chamada Porta de S. Bento que ainda hoje ostenta as armas reais deste último monarca, a moradia para os couteiros de pé e de cavalo, a enfermaria e outras beneficiações) a Tapada Ducal adquiriu excepcionais condições de parque ideal para as incursões venatórias.

D. José caçou ali em 1751 e 1769 e desde então até D. Pedro V escassearam, as caçadas reais, daí derivando um extraordinário incremente na multiplicação das espécies, a ponto de os administradores da Tapada se verem forçados a exterminar todos os javalis e desbastar os gamos e os veados, cuja carne se vendia a retalho nos açougues dos Clérigos e de Borba.

D. Pedro V, três vezes caçou em Vila Viçosa, em 1860 e 1861 e com a sua presença se iniciaria um novo ciclo na tradição das grandes caçadas reais nesta tão importante coutada. Logo seu irmão D. Luís, quando rei e já acompanhado do Príncipe Real D. Carlos e do infante D. Augusto, ali se divertiu de 18 a 25 de Janeiro de 1867. Em 1882 o Rei de Espanha Afonso XII também caçou na Tapada a convite do monarca português, realizando-se uma bela caçada.



D. Carlos, como Príncipe e depois como Rei, atirador exímio, foi sempre um devoto apaixonado das caçadas de Vila Viçosa, não faltando os seus numerosos convidados na época própria, enchendo o Paço e a Vila do maior movimento e entusiasmo. Os dias da sua presença em Vila Viçosa tornavam-se forçosamente dias de festa para o povo, o qual também tinha nas caçadas reais, e a convite do Rei, os seus melhores representantes na arte de caçar. Também outra das grandes paixões de D. Carlos, a arte de desenhar e de pintar, encontrou fortes motivos de inspiração na famosa Tapada de Vila Viçosa, no tão celebrado Marco da Lua, por exemplo. O quadro Sobreiro, de sua autoria, lá se encontra ainda exposto no Museu do Paço Ducal, a atesta ao lado de outras obras-primas de El-Rei D. Carlos, a arte magnífica a que se entregava com tanta devoção. Outros breves apontamentos de inspiração cinegética, deixou D. Carlos nos ornatos felizes das ementas dos grandes banquetes com que obsequiava os seus ilustres convidados.



Estas são razões históricas que justificam um passeio, pela vasta Tapada. Aqui e além, não poderá a sensibilidade de quantos gostam de reviver o Passado, ficar indiferente perante a evocação de momentos vividos por destacadas figuras da história nacional em locais que se celebrizaram, desde a casa de campo do duque D. Teodósio I até ao Marco da Lua, centro de reunião dos caçadores da comitiva de El-Rei D. Carlos…

Outros motivos, porém, de razão geográfica diremos, poderiam levar à Tapada Ducal o visitante curioso… Correm ainda, por seus vales, montes e planícies, os animais bravios de caça abundante, justificada atracção dos apaixonados da montaria, hoje como em todos os tempos…

Ali, a paisagem, a paisagem alentejana afinal, nem por ser violenta ou agreste, deixa de conter panoramas dos mais belos da Natureza. Do alto das colinas a visão que se oferece é admirável e convida à meditação e à evocação dos sentimentos mais puros das boas gentes do Alentejo. A Tapada de Vila Viçosa é, pois, um pedaço do Alentejo onde se vive, a par da tradição enraizada no solo e nos habitantes, toda a magia desta província.

In Vila Viçosa – História, Arte e Tradição

Imagens: Fundação da Casa de Bragança, Câmara Municipal de Vila Viçosa e autores desconhecidos

Para votar na Tapada Real envie um e-mail para orestaurador@gmail.com ou terrasdemarmore@sapo.pt